domingo, 30 de dezembro de 2012

a luta do profeta com deus e os homens = 2013


TEXTO BASE AMÓS 7: 1 =17

INTRODUÇÃO

TEMA: A LUTA DO PROFETA COM DEUS E COM OS HOMENS=IV

Charles Feinberg diz que o capítulo 7 começa a terceira divisão do livro de Amós:
1) oráculos de juízo contra as nações, capítulos 1 e 2;
2) ameaçadoras profecias contra Israel, capítulos
3 a 6; e 3) uma série de cinco visões de juízo, que conclui com bênção.
As quatro primeiras visões possuem, praticamente, a mesma fórmula introdutória:
“Assim o Senhor me fez ver” (7.1,4,7 e 8.1).
A última visão começa com as palavras: “Eu vi o Senhor” (9.1).
R. Crabtree diz que as visões são diferentes também no conteúdo.
O grupo de quatro simboliza o julgamento do Senhor já executado em parte contra Israel, e em parte o castigo que ainda há de cair sobre a nação. A última visão (9: 1-4) proclama a destruição completa do reino de Israel.



Do grupo das quatro visões, as primeiras duas (7: 1 =6) se distinguem das outras duas (7: 7 =9)
Pelo fato de que as primeiras apresentam, em resposta à intercessão do profeta, uma promessa de que o castigo mencionado não seria executado, enquanto nas outras duas o Senhor se recusa a modificar a punição, declarando:
“Nunca mais passarei por ele”.
A quinta e última visão representa o destino final de Israel, com a sua destruição completa.
As primeiras quatro visões constituem um prelúdio para esta.
Assim se nota um progresso no significado das visões.
Amós se apresenta neste capítulo como intercessor e como pregador.
Ele se coloca na brecha em favor da nação, mas também anuncia o juízo de Deus à nação.
Ele tem ousadia para falar da nação para Deus e de Deus para a nação.

I. A LUTA DO PROFETA COM DEUS (7.1-9)
Antes de ser pregador, Amós é intercessor. Antes de denunciar o pecado do povo, coloca-se na brecha em seu favor. Ele não apenas fala de Deus para o povo, mas do povo para Deus. Não podemos separar pregação de oração.
Elias levantou-se diante da nação, porque primeiro prostrou-se diante de Deus. Só prevalece em público diante dos homens quem primeiro se humilha em oração diante de Deus.
Os apóstolos dedicaram-se à oração e ao ministério da Palavra (At 6: 4).
Não há poder na pregação se não há oração associada a ela.
É mais importante ensinar um indivíduo a orar do que a pregar, porque sem oração a pregação não tem poder.
Amós é um intercessor antes de ser um pregador.

1° O juízo de Deus revelado
O profeta Amós anuncia três solenes juízos de Deus sobre a nação de Israel. O cálice da ira de Deus estava se enchendo e uma devastação sem precedentes estava para chegar. Vamos ver quais são esses juízos:
Em primeiro lugar, os gafanhotos (7: 1,2).
A praga dos gafanhotos sempre foi uma calamidade terrível (Dt 28: 42 / Jl 2: 35 / Na 3: 15 =17).
O Senhor já havia mandado o gafanhoto para despertar o povo e conduzi-lo ao arrependimento (4: 9).
A visão que Amós tem sobre os gafanhotos não era apenas de insetos destruidores que atacavam em bandos, trazendo calamidade material, mas eram também agentes de Deus. Amós destaca aqui três fatos:
Primeiro, Deus mesmo é quem forma os gafanhotos (7: 1). Deus preparou a aflição.
O mal que sucede à cidade é acionado pela própria mão de Deus (3: 6).
A praga dos gafanhotos é levantada por Deus.
Ele mesmo os molda como um oleiro dá forma ao barro. J. A. Motyer diz que foi Deus quem criou os gafanhotos com a presteza e o talento artístico de um oleiro (é o que o verbo formar indica).
Esses bandos destruidores não surgem apenas como uma epidemia ou catástrofe natural, eles foram criados por Deus para uma finalidade específica, exercer o juízo divino sobre a nação apóstata.
Deus está mostrando para o seu povo que a quebra da aliança está trazendo sobre eles a maldição em vez da bênção. Se o povo guardasse a aliança nenhuma calamidade material poderia destruí-lo.
Segundo, Deus corta a fonte de renda do governo (7: 1).

A erva serôdia devorada pelos gafanhotos era o tributo que o povo pagava ao rei por ocasião da primeira colheita (1ª Rs 4: 7 /18: 5), isto é, o imposto do rei, o tributo que devia abastecer os cofres públicos. J. A. Motyer afirma que a referência à “erva serôdia” indica que o rei reclamava as primícias para ele.
Jalmar Bowden diz que até o tempo do domínio romano na Síria, era costume tirarem os imperadores o que queriam da colheita serôdia, a mais importante. No tempo de Amós, já havia este costume.
Quando se deu esta visão, Jeroboão II, que era um grande guerreiro, e tinha, naturalmente, um exército tão grande que, com seus outros empreendimentos, exigia, uma grande parte da colheita serôdia. Só depois que ele se satisfizesse é que os lavradores podiam aproveitar o resto.
Deus, agora, estava enviando seu juízo às economias de um estado que deliberadamente havia se afastado da verdade e da justiça.

Terceiro, Deus corta a fonte de renda do povo (7: 2).
Depois que os gafanhotos destruíram a erva serôdia, o tributo do rei, devastaram o restante da colheita, deixando o povo sem nenhum fruto para sua sobrevivência.
Deus não apenas traz a praga dos gafanhotos, mas o faz no tempo determinado por ele, para cumprir o propósito determinado por ele.
Charles Feinberg diz que na Palestina era comum haver duas colheitas por ano.
Visto que as primeiras safras eram do rei, o povo dependia da segunda para sua subsistência, e era essa que estava sendo ameaçada pela praga do gafanhoto enviada por Deus.
O Senhor usa a natureza no exercício do seu governo moral para efeitos corretivos.
Em segundo lugar, o fogo (7.4). O fogo divino é o instrumento da sua ira (1: 4,7,10,14 / 2: 2,5).
Deus se apresenta como o Juiz que pede o comparecimento de Israel perante o tribunal, para contender com ele (Is 3: 15 / Jr 2: 9 / Os 4: 1 / Mq 6: 1).

Neste caso, porém, a nação não tem mais defesa, por isso, o profeta só pode pedir o perdão divino e a suspensão do castigo.
O fogo não é apenas um elemento destruidor, mas um agente do juízo divino.
Assim como em Êxodo 3: 2 não era necessário combustível para alimentá-lo, aqui em Amós 7: 4 não havia o que pudesse apagá-lo, diz Motyer.
Amós destaca aqui três coisas:
Primeiro, Deus é quem traz o fogo. Deus chama o fogo e este o atende.
O fogo escuta a voz de Deus para obedecer-lhe a vontade. Deus chamou o seu povo muitas vezes, mas este não ouviu sua voz; Deus chama o fogo e este atende à voz do seu comando.
Em cada ponto, a calamidade é um ato divino, diz Motyer:

É ele que se levanta com a espada (7: 9), jamais passarei por ele (8: 2), entenebrecerei a terra e converterei [...] vossos cânticos em lamentações (8: 9,10), enviarei fome [...] de ouvir as palavras do Senhor (8: 11), de lá os farei descer (9: 2), de lá os buscarei (9.3), darei ordem à espada, e ela os matará (9.4).
Segundo, O fogo é o agente da justiça divina. Deus é o Senhor de todo o universo.
Os anjos, os homens, os demônios, os animais e todos os elementos da natureza precisam atender à sua voz soberana. O fogo vem para exercer a justiça divina. Charles Feinberg afirma:
“O fogo a que Amós se refere é, sem dúvida, a seca (4.6-11).
Jalmar Bowden nessa mesma linha de pensamento afirma que Amós antevê uma seca terrível, na qual o calor do sol secará “o grande abismo” que, para os antigos, ficava em baixo da terra.
Depois disto, naturalmente, a terra se secaria e o fogo consumiria tudo.
O fogo serviria como instrumento nas mãos de Deus para castigar o povo.
Russell Norman Champlin ainda afirma que esse fogo simboliza o julgamento de Deus pelos raios sem misericórdia do sol. Um verão extraordinariamente quente trouxe a seca e a destruição da terra.
Muitos incêndios literais varreram o país, porquanto tudo estava ressecado (Jl 1: 19,20).
Até os poços e mananciais subterrâneos se secaram (Gn 7: 11; 49: 25 / Dt 33: 13).
Os rios e demais cursos de água secaram, e a terra de Israel secou como um osso.
A agricultura cessou, e o povo passava fome em massa. A terra foi assim devorada (Dt 32: 22).
Terceiro, o fogo traz destruição total. O fogo consumiu o grande abismo e devorava a herança do Senhor.
Esse fogo não pôde ser apagado. Ele lambeu com devastação total tudo quanto estava à sua frente.
A nação rebelde estava para sofrer uma derrota amarga e irreversível.
Em terceiro lugar, o prumo (7: 7 =9).

A terceira visão de Amós tem a ver com o prumo que Deus colocou no meio do seu povo.
Aqui Deus não apenas mostra a visão a Amós, mas é o elemento principal dela.
Nesta visão Amós vê a Deus como juiz.
Israel está sendo provado pelo prumo da justiça.
As duas primeiras visões (gafanhotos e fogo) apontam para ameaças às quais o povo não sobreviveria; a prova do prumo, para um teste no qual o povo não passaria.  J. A. Motyer é pertinente quando afirma que existem dois elementos distintos nesta descrição do que Amós viu:
Primeiro, o muro fora “levantado a prumo”, e, segundo, o muro estava sujeito a uma prova de prumo (7: 7).
Em outras palavras, Israel possuía desde o começo aquilo que era necessário a fim de passar na prova que lhe seria feita no final.  E o que era necessário para Israel passar nessa prova? O relacionamento pessoal com Deus e o conhecimento da sua santa Palavra.

A lei é a extensão verbal da pessoa e da presença de Deus entre o seu povo.
Deuteronômio 4: 7 apresenta essas duas verdades em perfeito equilíbrio: “Pois, que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como o Senhor nosso Deus, todas as vezes que o invocamos?
E que grande nação há, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que eu hoje vos proponho?” Motyer sintetiza isso assim:
“A auto-revelação do Senhor que fez de Israel o que ela é dentro todas as nações foi cristalizada na lei preceitual, e a característica do povo de Deus veio a ser revelada externamente na sua vida de obediência”.
Essa figura enseja-nos três lições:

Primeiro, Deus esquadrinha seu povo (7: 8).
prumo é usado para verificar se há falta de retidão num muro ou parede.
Ele não corrige a tortuosidade, mas a identifica. Deus sonda o seu povo, põe o prumo nele e constata sua sinuosidade na doutrina, na ética, e nos relacionamentos. Deus coloca o seu povo na balança e o acha em falta.
Segundo, Deus reprova seu povo (7: 8b). Deus não só aferiu a vida do seu povo, mas constatou sua sinuosidade.
O povo desviou-se da doutrina e perverteu-se na conduta. Israel abraçou uma teologia herética e por isso, corrompeu-se moralmente. Deus alertara o povo que não podia andar com ele, pois não havia mais acordo entre eles (3: 3).

Agora, Deus afirma categoricamente que jamais passará por ele (7: 8b), isto é, para exercer perdão.
Aqui não há mais intercessão do profeta, porque a paciência de Deus chegou ao fim.
O cálice da ira de Deus está transbordando.
Nada pode, agora, deter a catástrofe que se aproxima.
Israel, como o muro está preste a cair. Mais de uma vez a intercessão do profeta havia evitado o golpe da mão do Senhor, mas essa hora havia passado.
Terceiro, Deus destrói os pontos nevrálgicos onde o pecado foi promovido (7: 9).
Os altos de Isaque, ou seja, os bosques onde se adoravam os ídolos; os santuários de Israel, os templos que Jeroboão, filho de Nebate, erigira em Dã e Betel e a casa de Jeroboão seriam assolados.
Esses eram lugares onde a graça de Deus era abusada e a lei, negligenciada, diz Motyer.
 Os centros da religião e do poder político seriam atingidos pelo juízo divino.
Tanto a religião quanto a política havia se afastado do seu verdadeiro propósito e estava agora sob o julgamento divino. Amós afirma que tanto a falsa adoração quanto a monarquia ímpia em Israel serão varridas de vez. A. R. Crabtree diz que nesta visão do prumo aponta-se claramente a destruição da dinastia de Jeroboão II.

A destruição desta dinastia marcou definitivamente o princípio da queda rápida do reino.
2ª A intercessão do profeta (7: 2,3,5,6)
Warren Wiersbe afirma que Amós fazia parte de um grupo seleto de intercessores que incluía Abraão (Gn 18), Moisés (Ex 32), Samuel (1ª Sm 12), Elias (1° Rs 18) e Paulo (Rm 9: 1 =3; 10.1,2).
James Wolfendale diz que a oração tem geralmente preservado nações, revertido julgamentos, e mudado o curso de muitos eventos.
Deus não apenas tem formado calamidades, mas também estabelecido um lugar para a oração (2ª Cr 7: 14).
Amós ruge como leão quando fala em nome de Deus, mas se prostra humildemente em oração para falar com Deus. Charles Feinberg diz que só a oração poderia desviar o desastre e o homem de Deus ora para que o povo seja perdoado.  A oração de Amós pode ser analisada como segue:
Em primeiro lugar, é movida por profunda compaixão (7: 2).
Amós não ergue sua voz em favor do povo porque este tem méritos a reivindicar diante de Deus.
Amós não se põe na brecha porque a nação está coberta de pano de saco e cinzas como a cidade de Nínive ao ouvir o profeta Jonas.

A despeito da rebeldia e dureza de coração do povo, o profeta ainda o ama e enternecido por grande compaixão roga a Deus por ele.
Em segundo lugar, é endereçada a Deus com grande humildade (7: 2).
O conceito que Amós tem de Israel é diametralmente oposto ao conceito dos nobres de Samaria (6.1).
Eles estavam intoxicados pela soberba e cheios de presunção, nutrindo pensamentos soberbos; porém, Amós diz: Senhor ele é pequeno.

Amós viu o povo não como nação poderosa, com recursos suficientes para qualquer emergência, mas como nação pobre, fraca, indefesa. Apesar do orgulho, da arrogância e da vida luxuosa, Jacó era pequeno.
Os recursos nacionais e as riquezas materiais eram insuficientes para a nação fazer face ao desastre, na decadência moral.  J. A Motyer diz que a oração começa por adotar a postura divina, vendo as coisas e as pessoas como ele as vê, focalizando suas necessidades conforme são avaliadas no céu.
Warren Wiersbe diz que Amós não suplicou por qualquer uma das promessas divinas da aliança, pois sabia que o povo havia rompido a aliança com Deus e que merecia o castigo.

Em terceiro lugar, é feita com notório senso de urgência. Amós acreditava no poder da oração.
Ele sabia que Deus podia, pela oração, suspender o castigo. Sua teologia não era determinista.
Ele não acreditava no destino cego. Ele sabia que Deus podia reverter aquela situação.
Ele compreendia que os céus e a terra estão conectados.
Por isso, endereça sua oração a Deus e pede: “Senhor, cessa agora”.
Em quarto lugar, é fundamentada na misericórdia de Deus.

Amós não pede justiça nem reivindica direitos, ele roga por perdão (7: 2).
A base da sua súplica não está no merecimento humano, mas na misericórdia divina.
A expressão: “Rogo-te” no hebraico é apenas uma partícula, o equivalente de “por favor”.
A oração olha para a misericórdia e a onipotência de Deus.
As duas palavras intercessórias de Amós foram perdoa e cessa.
Na natureza de Deus existe algo para o que podemos apelar, a misericórdia que perdoa.
Com a palavra cessa, Amós parte da fraqueza e desamparo do homem, e olha para o Deus onipotente, capaz de suspender o castigo determinado.

Em quinto lugar, é vitoriosa em seus resultados (7: 3,6). O castigo foi suspenso.
Os gafanhotos foram desviados e o fogo extinguido. A causa de Amós prevaleceu.
A nação foi poupada porque um homem se colocou na brecha (Ez 22: 30).
Os versículos 2,3,5 e 6 revelam que é através da oração que a vontade de Deus opera na terra.
A decisão eterna, imutável e infalível de Deus é realizada através da oração. A oração move o coração de Deus, o Legislador de tudo. J. A. Motyer comenta que trezentos anos depois de Amós, Malaquias (4: 5) predisse a vinda do precursor do Messias e mais de setecentos anos depois de Amós chegou o momento de cumprir essa promessa, mas a palavra do anjo ao idoso Zacarias não foi “a profecia vai ser cumprida”, mas “a tua oração foi ouvida” (Lc 1.13).
A oração é um meio pelo qual o Senhor de tudo realiza suas determinações.

3ª O arrependimento de Deus (7: 3,6)
Charles Feinberg afirma que muitos têm perguntado como é possível dizer que Deus se arrependeu (Nm 23: 19; Tg 1.17), se ele é imutável, mas essa é apenas uma figura de linguagem.
Devemos lembrar-nos de que Deus sempre opera segundo sua santidade e justiça infinitas.
Quando o pecado se manifesta, Deus deve condená-lo e puni-lo; quando a oração e a graça de Deus operam para prover uma via de escape, então Deus poupa.
Em cada caso, ele está operando na mais estrita conformidade com sua conhecida santidade.
Assim, foi em resposta à oração confiante que Deus disse não permitiria que a praga viesse a causar devastação.

Só a eternidade revelará de maneira plena quanto, no plano de Deus, tem sido operado por intermédio da oração consistente e perseverante em favor de pessoas e nações em todo o mundo.
O Senhor é sempre imutável nos seus eternos propósitos.
O arrependimento de Deus é diferente do nosso.
Deus não se equivoca nem erra para precisar voltar atrás.
Deus é luz e não há nele treva nenhuma.
O arrependimento de Deus é uma antropopatia, ou seja, atribuir a Deus um sentimento humano.
Precisamos examinar algumas coisas:
Em primeiro lugar, o arrependimento de Deus neste caso é a suspensão do juízo.
Essa suspensão foi produzida não pelo arrependimento do povo, mas pela intercessão do profeta (7: 3,6).
Deus poupou o povo de Israel no deserto por causa da intercessão de Moisés (Ex 32: 11-14).
O profeta Ezequiel proclama as palavras do próprio Deus: “Busquei entre eles um homem que tapasse o muro e se colocasse na brecha perante mim, a favor desta terra, para que eu não a destruísse; mas a ninguém achei” (Ez 22: 30).

Em segundo lugar o arrependimento de Deus tem a ver com o abrandamento da sua ira.
Deus se apresenta ouvindo a oração e voltando-se da ira para a misericórdia para que, assim, possamos entender alguma coisa do que está envolvido em seu amor por nós.
Como tanto a ira como o amor são atributos divinos e como esses atributos não podem estar em conflito, há no amor de Deus aquilo que satisfaz e abranda sua ira.
Foi-nos revelado que é o sangue de Jesus, o grande dom do amor divino, que satisfaz a ira divina (Rm 3: 25).
 Por outro lado, quando o Senhor olha pra o seu povo, a misericórdia triunfa sobre a ira.
Foi o profeta Habacuque quem em sua oração, pediu: “Senhor, na tua ira, lembra-te da misericórdia” (Hc 3: 2).

II. A LUTA DO PROFETA COM OS HOMENS (7:10- =17)
J. A. Motyer afirma corretamente que não há serviço prestado a Deus sem oposição, sem perseguição e sem provação. Esta verdade jaz à superfície da história que temos diante dos olhos.
Amós atacou o rei mais forte de Israel, o homem mais opulento, o político mais hábil e o diplomata mais experimentado e isso não lhe ficou barato.
Amós foi provado de três maneiras.
A primeira foi a deturpação de suas palavras (7.10,11).
A segunda foi a tentação embutida nas palavras de Amazias (7.12) e a terceira veio na forma de uma confrontação com as autoridades (7.13).

1° Uma mensagem de Amazias ao rei (7.10,11). Estado e religião estavam juntos numa aliança espúria.
O sacerdote de Betel era um empregado do rei. Estava não a serviço de Deus, mas a serviço de Jeroboão.
 Jalmar Bowden diz que o sacerdote, no santuário real, julgava que tinha o dever de promover o culto e agradar o rei, custasse o que custasse.
Tinha muito interesse no ritual, no culto formal, no seu próprio prestígio e posição, mas não se interessava no bem estar espiritual e material do povo.
Por isso, ficou perturbado com a mensagem de Amós. Tentando intimidá-lo, procurou silenciar sua voz.
Nesse intento enviou um relatório ao rei, cometendo dois graves erros:
Em primeiro lugar, ele fez uma avaliação mentirosa acerca do profeta (7.10).
Amazias torce as palavras de Amós de sorte que pareça uma acusação pessoal contra o rei.
Amazias passa uma visão distorcida de Amós, de sua mensagem e de duas motivações.
Ele diz que Amós estava conspirando contra o rei, no meio do povo, ou seja, provocando motins, sedição e instabilidade política.
Amazias dá a impressão que Amós está chefiando uma revolução contra o rei. A. R. Crabtree diz que a acusação de Amazias é falsa porque o sacerdote entendeu erradamente a pregação do profeta, e interpretou erradamente o seu motivo e a finalidade da sua mensagem.
Amazias rejeitou a mensagem de Deus e o homem de Deus.
O falso sacerdote omite a base da ameaça, a esperança que o profeta apresenta ao povo no caso de arrependimento (5.4,6) e a própria intercessão do profeta a favor do reino.
Os olhos de Amazias estavam cegos para a verdade. Seu coração estava entorpecido para as coisas espirituais.

 Ele não era um mensageiro de Deus, mas um adulador do rei.
Ele fez um juízo errado de Amós e de Deus.
Achou que não importava a situação, Deus sempre estaria com eles.
Em segundo lugar, ele chegou a uma conclusão equivocada (7.11).
Sabendo das pregações candentes de Amós contra a hipocrisia dos sacerdotes (3.14; 4.4,5; 5.5; 5.21.25) que tinham corrompido a religião e trazido a nação ao precipício da ruína, em vez arrepender-se, endureceu seu coração, dizendo que a terra não podia sofrer todas as palavras de Amós.
Ele viu a ameaça do cativeiro como uma conspiração política, em vez de acatá-la como um alerta divino.
Charles Feinberg diz que a conveniência política em qualquer época desonra e contraria o testemunho da verdade. Veja o caso de Elias (1Rs 18.17), de Jeremias (Jr 37.13-15), de nosso Senhor Jesus (Jo 19.12), dos discípulos (Jo 11.48-50) e de Paulo (At 17.6,7).

2° Uma mensagem de Amazias ao profeta (7.12,13).
Há quatro atitudes de Amazias que devem ser destacas aqui:
Em primeiro lugar, um preconceito identificado (7.12).
Amazias chama Amós apenas de vidente, uma forma desdenhosa de referir-se às suas visões.
Amazias viu Amós apenas como alguém que trazia agouros quanto ao futuro e não como um profeta, aquele que traz uma mensagem de grande peso moral para a nação. Sua atitude era preconceituosa.
Para Amazias, o profeta Amós não passava de um visionário com idéias extravagantes de males imaginários.
Em segundo lugar, uma prepotência declarada (7.12b).
Amazias em vez de acatar as palavras de Amós, olhou-o apenas como um membro do reino rival, um estrangeiro intruso que deveria voltar à sua terra se quisesse viver e pregar.
Ele tentou igualar Amós a si, um profissional da religião, que fazia do seu sacerdócio um meio de vida.
O sacerdote do rei era mercenário e insinua que o profeta de Deus também o é.
Amós, porém, não pregava a Palavra para ganhar dinheiro.
Ele não era um mercenário nem um interesseiro como Amazias insinuava. Sua motivação não era auferir lucros nem buscar vantagens pessoais. Motyer viu nessas palavras de Amazias a Amós uma estratégia para tentá-lo em três aspectos. Primeiro, ele é tentado a agir em interesse próprio.
As palavras hebraicas vai e foge incluem uma ênfase adicional:
“para o teu próprio bem”, dando a entender que, em caso contrário, uma coisa desagradável aconteceria.
Segundo, ele é tentado a buscar o sucesso para o seu próprio bem: vai-te [...] foge para a terra de Judá, dando a entender que uma mensagem de condenação contra Israel encontraria um auditório natural entre os sulistas.

Terceiro, ele é tentado pela segurança: e ali come o teu pão.
Amazias insinua que Amós está mais interessado em ganhar dinheiro do que em ganhar almas.
Em terceiro lugar, uma ordem descabida (7.13).
Amazias não apenas expulsa Amós de Betel, mas também o proíbe de pregar no centro religioso do Reino do Norte. Betel era uma Capela Real e uma Catedral Nacional, onde Amós não podia pregar.
Mas Amós não foi o único que teve de enfrentar as autoridades. Não disseram aos apóstolos:
“Expressamente vos ordenamos que não ensinásseis nesse nome, contudo enchestes Jerusalém de vossa doutrina” (At 5.28)? Os apóstolos deram uma resposta esplêndida:
“Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5: 29).
Em quarto lugar, uma apostasia diagnosticada (7.13b).
Amazias declara com todas as letras o concubinato espúrio entre a política e a religião.
Betel não era mais a Casa de Deus, mas o santuário do rei.
Champlin diz que Jeroboão estabeleceu altares idólatras em Dã e Betel, especialmente para competir com o templo de Jerusalém.

Betel, assim, não era mais a casa do Rei dos reis, mas apenas um lugar para a bajulação de um rei ímpio.
A religião de Israel era eminentemente humanista. Tinha sua origem no homem e era voltada para o homem. Deus tinha sido excluído da religião em Betel.
3ª Uma mensagem de Amós a Amazias (7.14 =17)
Amós responde às palavras insolentes de Amazias, afirmando sua tríplice autoridade.
Primeiro, a autoridade da vocação: “O Senhor... me disse:
Vai”. Segundo, a autoridade da revelação, a posse de uma palavra vinda de Deus para falar:
“Vai, e profetiza”. Terceiro, a autoridade do comissionamento:
“Vai... ao meu povo Israel”.
Há verdades aqui que precisam ser enfatizadas:
Em primeiro lugar, Amós destaca sua vocação (7.14,15). Amós não é um profeta tradicional.
Ele não provém da escola de profetas, onde os jovens recebiam preparo para instruir a nação (1° Sm 19: 24).

Ele não procedia de uma família aristocrata.
Ao contrário, era um pastor de ovelhas e um agricultor.
Porém, Deus o tirou dos prados toscos de Tecoa e o enviou ao centro nevrálgico da nação de Israel para denunciar seus graves pecados. Amós não é um profeta da conveniência.
Ele não está atrás de sucesso nem de riqueza.
Ele foi chamado por Deus para ser boca de Deus. Sua palavra e sua autoridade não procediam de si mesmo, vinham diretamente de Deus (Gl 1.1; 2° Sm 7: 8).
Amós entende que deve obedecer a Deus antes que ao homem (At 5: 29).
Em segundo lugar, Amós acentuou o alvo de sua profecia (7.15).
Amós não está profetizando em Israel por um capricho pessoal nem por uma rivalidade política.
Ele profetiza em Israel por obediência ao chamado divino. Israel estava doente de morte e só este estrangeiro sabia diagnosticar seus males e indicar o caminho que o conduziria à saúde, diz Bowden.
Amós já anunciara a queda da cidade e o exílio do povo. Agora, Amós chega a vaticinar a morte do próprio monarca Jeroboão II.

indica, porém, que o rei pouco se importou com a notícia.
Provavelmente considerou Amós como um desses visionários messiânicos que em cada geração se levantam entre os incautos, arrastando um punhado de adeptos para o seu inevitável fim desastroso.
O rei não mandou prender o profeta sedicioso, apenas o mandou embora pela instrumentalidade do capelão de Betel.
Em terceiro lugar, Amós revela que quem teme a Deus não tem medo dos homens (7.16,17).
Nenhum profeta verdadeiro deixa se intimidar por ameaças humanas.
Cumpre-lhe ser fiel ao seu chamado. É mais importante ser fiel a Deus do que viver.
Como Neemias, Amós podia dizer:
“Homem como eu fugiria?” (Ne 6.11). João Batista preferiu perder a vida que perder sua integridade na pregação.

Ele foi degolado, mas mesmo morto, ainda fala! José do Egito preferiu ir para a prisão, mas ter a consciência livre do que adulterar com a mulher do seu patrão e viver como um prisioneiro do pecado.
É preferível um ministro morrer de fome a deixar atrofiar-se o seu espírito, como o de Amazias.
Jalmar Bowden diz, porém, que sempre há ministros ou sacerdotes que tomam a iniciativa contra qualquer reforma na religião.
Sacerdotes romanos chefiaram o movimento contra Lutero.
Ministros anglicanos fizeram tudo quanto lhes foi possível contra João Wesley, a ponto de o afastarem dos seus púlpitos e o obrigarem a organizar o Metodismo.
Ministros metodistas agiram de tal forma para com William Booth, que ele precisou organizar o Exército da Salvação fora da Igreja.

Em quarto lugar, Amós em vez de fugir reafirma o juízo de Deus sobre Israel (7.17).
Ao invés de a arenga de Amazias contra Amós calar a boca do profeta, trouxe o juízo para mais perto.
A profecia agora o cita individualmente.
O juízo de Deus cai sobre o sacerdote apóstata e sua família.
A sentença divina atinge toda a terra de Israel e o povo que vivia longe de Deus, agora vai também para uma terra longínqua em seu amargo desterro. A. R. Crabtree diz que a prostituição de mulheres, a matança de jovens, a repartição das propriedades, e o exílio dos líderes eram práticas comuns dos vitoriosos contra os conquistados.

O profeta não diz que a esposa do sacerdote se tornará prostituta voluntariamente, mas que será violada horrivelmente por força, pelos inimigos conquistadores.
Os filhos e as filhas de Amazias sofrerão o desastre terrível da guerra.
Às vezes as filhas foram tomadas como esposas para os soldados, mas na conquista de Israel pelos assírios cruéis, o castigo dos conquistados vai ser excessivamente severo.
A terra será medida a cordel e dividida entre os inimigos, de acordo com o costume dos assírios depois do tempo de Tiglate-Pileser (2° Rs 17: 24 / Mq 2: 4 /Jr 6: 12).
 Quão solenes são os juízos do Altíssimo! Quão soberbo é o coração humano que não acredita num juízo final para todos, inclusive para o povo de Deus! Quão presunçoso aquele que pensa que uma profissão de fé, alguma assistência aos cultos, alguma contribuição ocasional aos cofres sacros compensam a falta de pureza moral, de honestidade, e de compaixão!  Charles L. Feinberg corretamente afirma que terrível coisa é alguém se colocar contra a verdade divina. Quanto mais o homem tenta silenciá-la, tanto mais alto ela clama.

Podemos concluir este capítulo lembrando as palavras de Warren Wiersbe, quando afirmou que Amazias possuía um cargo elevado, riqueza, autoridade e boa reputação, porém, Amós possuía a Palavra do Senhor.
Amazias servia ao rei de Israel e dependia dele para seu sustento, porém Amós servia ao Rei dos reis e não temia o que os homens pudessem lhe fazer.
O que conta não é a aprovação da “instituição religiosa”, mas sim o chamado e a bênção do Senhor.

A ser viço do rei Pr. João Nunes Machado

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