quinta-feira, 4 de julho de 2013

Os conflitos de interesses entre os homens

Os conflitos de interesses entre os homens

Alguns estudantes do Objetivismo acham difícil entender o princípio Objetivista de que "não existem conflitos de interesse en­tre homens racionais".
Uma pergunta típica é a seguinte: "Suponha que dois ho­mens se candidatem para o mesmo emprego.

Apenas um pode ser empregado.

Não será este um exemplo de conflito de interesses, e não se beneficiará um deles à custa do sacrifício do outro?"

Existem quatro considerações interrelacionadas envolvidas na visão dos interesses de um homem racional, mas ignoradas ou evadidas na pergunta acima e em todas as abordagens parecidas da questão.

Eu as designaria como: (a) "Realidade", (b) "Contex­to", (c) "Responsabilidade", (d) "Esforço".



(a) Realidade. O termo "interesses" é uma ampla abstração que cobre todo o campo da ética. Inclui as questões de: valores do homem, seus desejos, metas e sua verdadeira conquista, na re­alidade. Os "interesses" de um homem dependem do tipo de me­ta que escolha buscar; sua escolha de metas depende dos seus dese­jos, estes dependem dos seus valores ? e, para um homem racio­nal, os valores dependem do juízo de sua razão.

Os desejos (ou sentimentos ou emoções ou vontades ou capri­chos) não são armas da cognição; não são um padrão válido de valor, nem um critério válido dos interesses do homem. O mero fato de um homem desejar algo não constitui uma prova de que o objeto do seu desejo é bom, nem de que a conquista é realmen­te de seu interesse.

Alegar que os interesses de um homem são sacrificados to­da vez que um desejo seu é frustrado, é ter uma visão subjetivis­ta dos valores e interesses do homem. O que significa: acreditar que é adequado, moral e possível ao homem alcançar suas metas, indiferentemente de contradizerem os fatos da realidade ou não. O que significa: ter uma visão irracional ou mística da existência. O que significa: não merecer nenhuma consideração adicional.

Ao escolher suas metas (os valores específicos que visa obter e/ou manter), um homem racional é guiado pelo seu pensar (por um processo da razão) ? não por seus sentimentos ou desejos. Não considera desejos como premissas irredutíveis, como aquelas dadas, que é destinado irresistivelmente a buscar.

Ele não conside­ra "porque eu o quero" ou "porque eu tenho vontade" como uma causa ou validação suficiente de seus atos. Escolhe e/ou iden­tifica seus desejos por um processo da '`razão e não age para reali­zar um desejo até e a menos que seja capaz de racionalmente vali­dá-lo no contexto completo do seu conhecimento e dos seus ou­tros valores e objetivos. Ele não age até que possa dizer: "Eu que­ro isto porque é certo."

A Lei de Identidade (A é A) é a consideração suprema de um homem racional no processo de determinar seus interesses. Ele sabe que o contraditório é o impossível, que uma contradição não pode ser alcançada na realidade, e que a tentativa de alcançá-la pode somente levar ao desastre e à destruição. Por conseguinte, não se permite ter valores contraditórios ou imaginar que a busca de uma contradição possa, um dia, ser de seu interesse.
Apenas um irracionalista (ou místico ou subjetivista ? em cuja categoria posiciono todos aqueles que consideram a fé, os sen­timentos ou desejos como o padrão de valor de um homem) vive em um perpétuo conflito de interesses. Não somente os seus supos­tos interesses se chocam com os de outros homens, mas também se chocam entre si.

Ninguém considera difícil descartar de uma consideração filo­sófica o problema de um homem que se lamenta de que a vida o colocou num conflito irreconciliável porque ele não pode comer a sobremesa e ao mesmo tempo guardá-la. Este problema não ad­quire validade intelectual por ser ampliado até englobar questões além de sobremesas ? se for expandido para todo o universo, como nas doutrinas do Existencialismo, ou apenas para poucos ca­prichos e evasões eventuais, como nas visões da maior parte das pessoas a respeito dos seus interesses.
Quando uma pessoa alcança o estágio de afirmar que os inte­resses do homem se conflituam com a realidade, o conceito "inte­resses" deixa de ser significativo ?--- e o problema deste deixa de ser filosófico e se torna psicológico.

(b) Contexto. Assim como um homem racional não possuí nenhuma convicção fora de contexto ? ou seja: sem relaciona-la com o resto do seu conhecimento e resolver quaisquer possíveis contradições ?, também não possui ou busca nenhum desejo fo­ra de contexto. E não julga o que é ou não é de seu interesse fo­ra de contexto.
Esquecer o contexto é uma das principais armas psicológicas de evasão. Com relação aos desejos do indivíduo, há duas formas de abandonar o contexto: as questões de alcance e de meios.
Um homem racional vê seus interesses em termos de toda uma vida e seleciona as suas diretrizes de acordo. Isto não signifi­ca que tenha de ser onisciente, infalível ou clarividente.

Significa que ele não vive sim vida a curto prazo e não vagueia como um beberrão impulsionado pelo imprevisto. Significa que não conside­ra nenhum momento como separado do contexto do resto de sua vida, e que não permite conflitos ou contradições entre os seus in­teresses de curto ou longo prazos.

Ele não se torna seu próprio destruidor buscando um desejo, hoje, que destruirá todos os seus valores, amanhã.

Um homem racional não se permite melancólicos desejos diri­gidos a fins divorciados dos meios de que dispõe. Não se apega a um desejo sem saber (ou aprender) e considerar os meios pelos quais consegui-lo. Dado que sabe que a natureza não provê o ho­mem de satisfação automática dos seus desejos; que as metas e va­lores de um homem devem ser conquistados pelo seu próprio es­forço; que as vidas e esforços de outros homens não são sua pro­priedade e não estão lá para servir aos seus desejos ? um homem racional não tem um desejo ou busca um objetivo que não possa ser alcançado direta ou indiretamente por seu próprio esforço.

É com um entendimento adequado deste "indiretamente" que a questão social decisiva inicia-se.
Viver em uma sociedade, ao invés de numa ilha deserta, não alivia o homem de sua responsabilidade de sustentar sua própria vida. A única diferença é que ele sustenta a sua vida comercializan­do os seus produtos ou serviços pelos produtos ou serviços de outros, e, neste processo de comércio, um homem racional não pro­cura ou deseja nada mais ou nada menos do que seu próprio es­forço possa ganhar. O que determina seus ganhos? O mercado li­vre, isto é: a escolha e julgamento voluntários dos homens que es­tão prontos a comercializar com ele seus próprios esforços.

Quando um homem negocia com outros, está contando ­explícita ou implicitamente ? com a racionalidade deles, ou seja: com a habilidade destes de reconhecerem o valor objetivo do seu trabalho. (Um negócio baseado em qualquer outra premissa é um jogo de truques ou uma fraude.) Deste modo, quando um homem racional busca uma meta em uma sociedade livre, não se coloca à mercê dos caprichos, favores ou preconceitos de outros; depen­de somente do seu próprio esforço: diretamente, fazendo trabalho objetivamente de valor ? indiretamente, através da avaliação obje­tiva do seu trabalho por outros.
É neste sentido que um homem racional nunca mantém um desejo ou busca um objetivo que não possa ser alcançado por seu próprio esforço.

Ele comercializa valor por valor. Nunca procura ou deseja o imerecido. Se decide alcançar um objetivo que requer a cooperação de muitas pessoas, nunca conta com nada mais do que a sua própria habilidade de persuadi-las, bem como a concor­dância voluntária delas.

É desnecessário dizer que um homem racional nunca distor­ce ou corrompe seus próprios critérios e juízo para apelar à irracio­nalidade, estupidez e desonestidade de outros. Ele sabe que este rumo é suicida. Sabe que a única chance prática de se alcançar qualquer grau de sucesso ou qualquer coisa humanamente desejá­vel repousa em negociar com aqueles que são racionais, indiferen­temente de serem muitos ou poucos. Se, em qualquer circunstân­cia dada, é possível obter vitória, somente a razão pode lográ-la.

E, em uma sociedade livre, indiferentemente de quão difícil seja a luta, a razão é que, por final, vence.
Dado que nunca abandona o contexto das questões com as quais lida, um homem racional aceita aquela luta como de seu interesse ? porque sabe que a liberdade é de seu interesse. Sabe que a luta para alcançar seus valores inclui a possibilidade de derrota. Também sabe que não há nenhuma alternativa e nenhuma garan­tia automática de sucesso pelo esforço humano, nem ao lidar com a natureza, nem com outros homens. Então ele não julga os seus interesses por nenhum fracasso específico, nem pelo alcance de ne­nhum momento em particular. Vive e julga a longo prazo. E assu­me a completa responsabilidade de saber que condições são neces­sárias para a conquista dos seus objetivos.
(c) Responsabilidade. Esta última é a forma particular da res­ponsabilidade intelectual da qual a maioria das pessoas foge. Es­sa fuga é a causa majoritária de suas frustrações e fracassos.

A maior parte das pessoas tem desejos fora de qualquer con­texto, como se fossem metas suspensas em um vácuo nebuloso, a névoa escondendo qualquer conceito sobre os meios para atingi-las. Elas se despertam mentalmente apenas o tempo suficiente pa­ra proferir um "eu desejo" e param aí, e esperam, como se o res­to dependesse de alguma força desconhecida.

Elas fogem é da responsabilidade de julgar o mundo social. Consideram o mundo como dado. "Um mundo que eu nunca construí" é a essência mais profunda de sua atitude ? e procuram ape­nas se ajustar sem criticas aos requisitos incompreensíveis daque­les incognoscíveis outros que, estes sim, construíram o mundo, quem quer que tenham sido.

Mas humildade e presunção são dois lados da mesma moeda psicológica. Na disposição de se entregar cegamente à mercê de outros, existe o privilégio implícito de fazer demandas cegas aos seus mestres.
Existem inúmeras maneiras para este tipo de "humildade me­tafísica" se revelar. Por exemplo, há o homem que deseja ser ri­co, mas jamais pensa em descobrir que meios, ações e condições são necessários para alcançar a riqueza. Quem é ele para julgar? Nunca construiu o mundo ? e "ninguém lhe deu uma oportunidade".

Existe a garota que deseja ser amada, mas nunca pensa em descobrir o que é o amor, que valores este requer, e se ela possui alguma virtude pela qual possa ser amada. Quem é ela para julgar? O amor, sente ela, é um benefício inexplicável ? então simples­mente o almeja, sentindo que alguém a privou da sua quota na distribuição de benefícios.

Há os pais que sofrem profunda e genuinamente porque o seu filho (ou filha) não os ama, e que, simultaneamente, ignoram, se opõem a ou tentam destruir tudo que sabem das convicções, valores e diretrizes de seu filho, nunca pensando na conexão entre estes dois fatos, nunca fazendo uma tentativa de entender seu fi­lho. O mundo que nunca construíram e que não ousam desafiar, disse-lhes que as crianças amam seus pais automaticamente.

Existe o homem que quer um emprego, mas jamais pensa em descobrir que qualificações este requer, ou de que se constituí o fazer um bom trabalho. Quem é ele para julgar? Nunca cons­truiu o mundo. Alguém lhe deve uma vida. Como? De alguma maneira.

Um arquiteto europeu meu conhecido estava falando, um dia, da sua viagem para Porto Rico. Descreveu ? muito indignado em relação ao universo como um todo ? a sordidez das condições de vida dos porto-riquenhos. Então descreveu as maravilhas que 'a habitação moderna poderia fazer para eles, as quais havia sonhado em detalhes, incluindo refrigeradores elétricos e banheiros azulejados.

Eu perguntei: "Quem pagaria por isto?" Ele res­pondeu, num tom de voz levemente ofendido, quase irado: "Ah, isto não cabe a mim me preocupar. A incumbência de um arquite­to é somente projetar o que deveria ser feito. Deixe que outra pes­soa pense no dinheiro," Esta é a psicologia de onde partiram todas as "reformas so­ciais" ou "serviços sociais" ou "experiências nobres" ou a destrui­ção do mundo.
Ao reduzir a responsabilidade pelos próprios interesses e pe­la própria vida, se reduz a responsabilidade de alguma vez ter de considerar os interesses e vida de outros ? daqueles outros que devem, de alguma maneira, proporcionar a satisfação dos nossos próprios desejos.

Quem quer que permita um "de alguma maneira" dentro de sua visão dos meios pelos quais seus desejos devem ser alcançados, é culpado daquela "humildade metafísica" que, psicologicamente, é a premissa de um parasita. Como apontou Nathaniel Branden em uma palestra, "de alguma maneira" sempre significa "alguém".
(d.) Esforço. Uma vez que um homem racional sabe que deve conquistar suas metas por seu próprio

esforço, sabe que nem a riqueza nem empregos nem quaisquer valores humanos existem em uma quantidade dada, limitada, estática, aguardando ser divi­dida. Ele sabe que todos os benefícios têm de ser produzidos, que ganho de um homem não representa a perda de outro, que a re­alização de um homem não é obtida à custa daqueles que não a alcançaram.
Portanto, ele nunca imagina ter algum tipo de direito a reivin­dicar o imerecido, unilateral, a qualquer ser humano ? e nunca deixa os seus interesses à mercê de qualquer outra pessoa ou de uma idéia concreta, específica. Pode precisar de clientes, mas não de um cliente em particular ? pode precisar de fregueses, mas não de um freguês em particular ? pode precisar de um empre­go, mas não de um emprego em particular.
Se encontra competição, ou a enfrenta, ou escolhe um outro tipo de trabalho. Não existe um emprego tão baixo em que seu melhor e mais habilidoso desempenho passe desapercebido e não apreciado: não em uma sociedade livre. Pergunte a qualquer geren­te de empresa.

Somente abúlicos, parasitas da escola da "metafísica da hu­mildade", veem todo competidor como uma ameaça, porque o pensamento de ganhar uma posição por mérito pessoal não faz parte de sua visão de vida. Eles consideram a si mesmos como mediocridades substituíveis que nada têm a oferecer e que lutam em um universo "estático", pelo benefício sem causa de alguém.

Um homem racional sabe que não se vive por meio de "sor­te", "chances" ou favores, que não existe algo como uma "úni­ca chance" ou uma única oportunidade, e que isto é garantido pre­cisamente pela existência da competição. Ele não considera nenhu­ma meta especifica e concreta ou valor como insubstituível. Sabe que apenas pessoas são insubstituíveis ? apenas aquelas que se ama.

Sabe, também, que não há conflitos de interesses entre ho­mens racionais, nem mesmo na questão do amor, Assim como qualquer outro valor, o amor não é uma quantidade estática a ser dividida, mas uma resposta ilimitada a ser ganha.

O amor por um amigo não é uma ameaça ao amor por outro, e nem o é o amor pelos vários membros de uma família, admitindo-se que eles

ganharam. A forma mais exclusiva ? o amor romântico ? não é uma questão de competição. Se dois homens estão apaixonados pela mesma mulher, o que ela sente por qualquer um deles não é determinado pelo que sente pelo outro e nem tampouco é tirado dele. Se ela escolhe um, o "perdedor" não poderia ter tido o que "vencedor" ganhou.

É somente entre pessoas irracionais, motivadas emocionalmen­te, cujo amor está divorciado de quaisquer critérios de valor, que rivalidades ocasionais, conflitos acidentais e escolhas cegas prevale­cem. Mas então, quem quer que vença não vence totalmente. En­tre os movidos-a-emoção, nem o amor nem qualquer outra emo­ção tem qualquer significado.

Essas são, em breve essência, as quatro considerações majori­tárias envolvidas na visão de um homem racional sobre os seus in­teresses.
Agora retornemos à pergunta feita' originalmente ? sobre os dois homens se candidatando ao mesmo emprego ? e observemos de que maneira ela ignora ou opõe estas quatro considerações.
Realidade. O mero fato de que dois homens desejem o mesmo emprego não constitui prova de que qualquer um deles es­teja qualificado para ele ou o mereça e de que seus interesses sejam prejudicados, se não o obtiver.
Contexto. Ambos devem saber que, se desejam o mesmo emprego, sua meta só se torna possível pela existência de um inte­resse empresarial capaz de prover emprego ? que este interesse empresarial requer a disponibilidade de mais de um candidato pa­ra qualquer emprego ? que se existisse somente um candidato, ele não conseguiria o emprego, porque o interesse empresarial te­ria que fechar as suas portas ? e que sua competição para o mes­mo emprego é de seu interesse, muito embora um deles perca na­quele conflito específico.

Responsabilidade.
Nenhum homem tem o direito moral de declarar que não quer considerar todas estas coisas, apenas . quer um emprego.
Não lhe é dado o direito a nenhum desejo ou "interesse" sem o conhecimento do que é requisitado para tornar sua execução possível.
Esforço. Quem quer que pegue o emprego, o ganhou (pres­supondo-se que a escolha do empregador seja racional).

Este bene­ficio se deve ao seu próprio mérito ? não ao "sacrifício" do outro homem, que nunca teve nenhum direito adquirido sobre o em­prego.
O fracasso em dar a um homem o que nunca lhe pertenceu dificilmente pode ser descrito como "sacrificar seus interesses."

Toda a discussão acima somente se aplica a relacionamentos entre homens racionais e não mais do que a uma sociedade livre. Nesta, não se tem de tratar com os que são irracionais.
Um indiví­duo é livre para evitá-los.

Em uma sociedade carente de liberdade não existe, para nin­guém, a possibilidade de buscar interesse algum; nada é possível, exceto a destruição gradual e geral.

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